O que está acontecendo hoje no Brasil

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O que está acontecendo hoje no Brasil

A simplificação prometida pela reforma não enfrenta a raiz do problema: um sistema complexo, caro e incapaz de estimular produtividade e investimento.

O Brasil atravessa um momento em que decisões de política econômica precisam ser convergentes para destravar o crescimento. Em audiência recente no Senado, o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, foi lembrado que a combinação de economia ainda aquecida, desemprego próximo das mínimas históricas e inflação pressionada por choques de oferta – somado a tensões externas – nos obriga a manter patamar elevado de juros. Sabemos que não é fácil, mas é a receita imposta que a conjuntura nos apresenta, e é nesse contexto que insisto e denuncio: O sistema fiscal brasileiro é um manicômio.

São cinco aparelhos fiscais superpostos — o federal, o estadual, o municipal, o trabalhista e o previdenciário. Se conseguirmos superar o federal e o previdenciário, será um enorme avanço. O imposto único surge como uma resposta estrutural para que o país retorne o caminho do crescimento e o ponha na vanguarda do mundo em inovação.

Digo do mundo, porque outras democracias ocidentais navegam em “berço esplêndido” as custas do terceiro mundo, através de tarifas e ameaças. Preferem o apego ao sistema próprio que funciona como uma marca de identidade cultural e o receio em ousar em alterar o comportamento de suas infraestruturas e grande parte de seus sistemas industriais.

Tenho absoluta convicção que não ousarão comprometer politicamente o “status quo” do “establishment” burguês de cada um deles. Com esse sistema arcaico, embora conveniente a eles, é um momento de coragem nossa quando dados e falas recentes indicam que a economia segue resistindo, mas isso não elimina o problema central: a política fiscal e o desempenho do sistema tributário geram efeito contracionista.

Quando a carga tributária vem acompanhada de múltiplas obrigações, interpretações concorrentes e burocracia constante, o empresário deixa de decidir com base no mercado e passa a decidir com base no risco tributário. Em outras palavras: mesmo quando a demanda existe, a ineficiência tributária reduz margem, empurra empresas para estruturas menos produtivas e incentiva informalidade e fuga de planejamento. Não é exagero dizer que, para muitos setores, a tributação virou um componente de custo de operação, até empresas privadas sofrem tremendamente para atender esse manicômio tributário.

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Uma empresa de porte significativo tem que escriturar dezesseis livros fiscais, dez contábeis, seis societários e três trabalhistas. A distinção entre fiscais e achacadores é quase tão tênue como a que existe entre o desejo e um suspiro… Essa reforma que aí está, equivale a realocar quartos ou caiar as paredes do manicômio. Não muda o protocolo psiquiátrico. Os problemas se agravaram com as famosas emendas secretas que representam, entre as secretas e impositivas, 30,8% da receita líquida da União direcionada para o Parlamento, que como um todo está contaminado e comprometido com o poder discricionário das cúpulas dos partidos que as destinam conforme bem entendem.

O excesso de tributos, obrigações e interpretações transforma a burocracia em custo permanente e afasta o país de um ciclo sustentável de crescimento.

O caso Vorcaro, por exemplo, ė fruto dessas distorções, dessa cadeia de tráfego de influências, onde deputados dependem de presidentes de partidos e empresários dependem de líderes partidários para obter suas vantagens fiscais. Tenho conhecimento que dois presidentes de partidos que aliaram-se como formação de quadrilha para extorquir ou devorar como tubarões quem quer que eles precisem. Ressalvo partidos de forte formação orgânica e ideológica que embora integram o jogo do sistema, não compactuam com tais distorções.

A reforma tributária precisa ser compreendida com uma política industrial e de emprego. O IUF não é um slogan: é uma mudança de arquitetura que no futuro poderá ser ainda mais ampla. A proposta defendida no debate público substitui diversos tributos por um único recolhimento simplificado ao longo das transações — justamente para reduzir a guerra diária do contribuinte com obrigações e interpretações.

O imposto único como discutido no debate em torno da proposta que referendamos, incide sobre cada transação financeira (débito e crédito), o que cria um ambiente em que a arrecadação através da rede bancária ocorre no momento em que o fato acontece. A isso, enfatizamos duas virtudes centrais, que são o combate à sonegação e a informalidade, pois quando o reconhecimento é automático na trilha do pagamento, dificulta-se a sonegação “por fora da contabilidade”; e a promoção da equidade e redução de distorções: tributa-se a movimentação de forma uniforme, em vez de criar incentivos para reorganização societária apenas para escapar de regimes mais caros ou mais complexos.

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Também é relevante destacar que o Brasil não precisa apenas arrecadar. O Brasil precisa arrecadar com eficiência, com regras que não punam quem produz e que não premiem a ineficiência. A atual configuração impõe ao país a convivência com múltiplas incidências e uma burocracia que corrói a capacidade de planejamento. Como já falamos, o imposto único pretende trocar vários impostos por apenas um, reduzindo a fragmentação do sistema e criando um caminho objetivo para simplificar o cumprimento para empresas e cidadãos; reduzir litígios; melhorar sensivelmente o campo contencioso; melhorar o ambiente para investimentos; conter o avanço da carga invisível da burocracia, como já abordei em um passado recente na obra “BUROCRATOCIA — A Invasão Invisível”, publicado pela M.Books do Brasil Editora em 2006.

O Brasil não é apenas a alíquota — é o desenho completo. Não basta reformar por “remendos” ou por modelos que aumentem a complexidade. Se a meta é voltar a crescer, a reforma deve ser capaz de reduzir custos, aumentar previsibilidade e melhorar a relação entre Estado e contribuinte. Defendo, portanto, o imposto único federal como uma solução para destravar o ambiente de negócios, enfrentar a sonegação com maior efetividade e simplificar o sistema para que a economia volte a ganhar velocidade.

O país não pode continuar pagando o preço de um sistema tributário que consome energia nacional em vez de mobilizar investimento. O que está aí em vigor, é aperfeiçoar o obsoleto. Espero que em 2027 um novo governo atente para isso. Não podemos permitir jamais que a ineficiência e o complexo sistema tributário e seus efeitos nos faça passar por um outro susto de uma turbulência política de tamanha magnitude.

Deputado Federal Luciano Bivar.|Foto:©Michel Jesus.

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